ReExistir
Não se faz mais futuro como antigamente. Inteligência artificial, mudanças climáticas e saúde mental são os grandes drives de transformação do nosso tempo. Temos que ReExistir.
Quando eu era criança, lá nos agora tão festejados anos 80, criança caía, ralava o joelho e já imediatamente corria de volta dizendo que não tinha sido nada, porque Merthiolate ardia como limão nos olhos (ou talvez pior que isso). Obrigada fabricantes por terem encontrado outro princípio ativo que não arde.
A parte boa de ter crescido caindo e passando remédio que arde é que eu, desde cedo, aprendi a ter coragem e resiliência. Só quem foi obrigado a tomar óleo de fígado de bacalhau sabe o que passei.
Na Física e na Engenharia, resiliência é um termo que descreve a propriedade de um material que sofre uma deformação sob pressão, mas retorna à sua forma original quando a força deixa de agir (como uma mola ou borracha). Mas então, me veio a dúvida: ele volta a ser exatamente o que era? Com todas as propriedades e tal? Pelas minhas pesquisas e conversas com as IAs, parece que sim.
No campo da psicologia, resiliência representa a habilidade humana de absorver impactos emocionais e lidar com o estresse para superar traumas e continuar a vida de maneira saudável.
Então, em 2012 Nassim Nicholas Taleb, professor de Engenharia de Risco na Universidade de Nova York (NYU) e autor do livro "Antifrágil: Coisas que se Beneficiam com o Caos”, publicou sua teoria defendendo que ser “antifrágil” é dar um passo à frente da resiliência.
Fica comigo que isso tem tudo a ver comigo e com você.
No livro, ele define a propriedade de sistemas que não apenas resistem a choques, mas que melhoram e se fortalecem diante das adversidades e divide o mundo em três categorias: O Frágil, O Robusto/Resiliente e O Antifrágil.
Ser Antifrágil é amar a aleatoriedade e os erros. Taleb defende que sistemas antifrágeis, além de resistir a choques e adversidades, se fortalecem com eles. Em vez de quebrar sob pressão, eles se adaptam, aprendem e acabam se tornando sistemas mais robustos.
"O que não me mata me fortalece"
Célebre frase de Friedrich Nietzsch, presente no livro Crepúsculo dos Ídolos, de 1889.
Imagine a cena: uma tempestade com ventos fortes, as árvores balançando. Infelizmente, muitas vão sucumbir, não vão aguentar a força do vento. Mas existe uma árvore que além de sobreviver, prospera com a tempestade. Ela é mais que resiliente, ela é antifrágil.
Da mesma forma, Taleb argumenta que pessoas, comunidades, organizações e ideias podem se beneficiar do caos e da incerteza.
Ser antifrágil, hoje, é estar aberto à mudanças, adotando uma mentalidade de crescimento e adaptabilidade diante dos desafios que enfrentamos em nossas vidas pessoais e profissionais.
“A gente” é muita gente
Se você se sente em uma tempestade, estamos juntos.
Inteligência artificial, mudanças climáticas e saúde mental não à toa são os assuntos do momento. Eles são os grandes drives de transformação do nosso tempo.
Mas, como uma boa criança que cresceu passando merthiolate, acredito que dá pra levantar, sacudir a poeira e seguir em frente. O tal “fazer do limão uma limonada".
Para além dos lugares comuns, entender que precisamos estar abertos à mudanças me parece o primeiro passo. Não adianta resistir, temos que ReExistir.
Dizer “eu não aceito a inteligência artificial", negar as mudanças climáticas ou olhar para uma epidemia de solidão como se isso fosse mimimi, não vai fazer com que tudo se resolva.
Então, pra onde vamos?
Como o professor e historiador Yuval Noah Harari diz em seu tão aclamado livro “ Sapiens - uma breve história da humanidade", foi nossa capacidade de organização e de trocar informações que nos fez chegar até aqui. As motivações são diversas, incluindo em sua teoria a importância da fofoca. (Essa é uma delas, vale ler o livro todo).
[...] Uma segunda teoria entende que nossa linguagem única evoluiu como meio de compartilhar informações sobre o mundo. No entanto, a informação mais importante que precisava ser transmitida era sobre humanos, e não sobre leões e bisões. Nossa linguagem evoluiu como um instrumento para troca de fofocas. Segundo essa teoria, o Homo Sapiens é em essência um animal social. A cooperação social é fundamental para a sobrevivência e a reprodução. Não basta que determinados homens e mulheres saibam onde se encontram os leões e os bisões. É muito mais relevante para eles saber quem no grupo odeia quem, quem está dormindo com quem, quem é honesto, quem é trapaceiro. [...]
(Harari, 2011, p. 34)
Em nossa era digital e tecnológica, temos acesso a um número infinito de informações. E é aqui que eu queria chegar.
O que estamos fazendo com isso?

Informação sem contexto é barulho.
Essencialmente, para ler contexto é preciso observar as transformações que estão acontecendo ao nosso redor e escolher, com intenção, pesquisar mais para discutir e identificar conexões que nos ajudam a tomar melhores decisões. Sem intenção o barulho só cresce.
ReExistir significa reorganizar-se, adaptar-se.
ReExistir é buscar novas perguntas para encontrar respostas diferentes que levem a novas perguntas.
ReExistir é entender que as “certezas absolutas” podem atrapalhar nossa percepção e é preciso duvidar.
Saúde mental, emergência climática e inteligência artificial se entrelaçam de forma intensa, deixando clara a necessidade de explorar a intersecção desses temas de forma mais profunda e criativa. A saúde mental é uma lente através da qual devemos buscar compreender e abordar os movimentos sociais, tecnológicos e climáticos em curso e quais são seus impactos diretos e indiretos em nossas vidas.
Para viver a "Era da Mudança", a resiliência já não é o bastante, precisamos abraçar as incertezas e as novas tecnologias como desafios e oportunidades de crescimento e (re)evolução.
É preciso duvidar. Diante das incertezas do futuro, estamos em busca de novas perguntas.
Em nossa trilha de conhecimento existe uma curadoria que ajuda pessoas e equipes a observar mais e melhor o cotidiano para realmente fazer parte das mudanças. Temos um território de múltiplas possibilidades que precisam de contexto para transformar informação em um repertório que aprimore nosso senso crítico.
Nossos encontros são um convite para duvidar e buscar novas perguntas que possam ampliar nosso campo de visão. Em um mundo onde a constante é a mudança, é só através de um diálogo aberto e criativo que podemos encontrar novas perspectivas e soluções para os desafios que enfrentamos.
"Não podemos entrar duas vezes no mesmo rio, pois novas águas estão sempre fluindo sobre nós."
atribuída ao filósofo grego Heráclito de Éfeso (c. 535 a.C. – 475 a.C.)
Agora já temos remédios que não ardem e conseguimos até brincar com nossa suposta imagem dos anos 80, mesmo que os resultados sejam, no mínimo, duvidosos. Avanços técnicos e tecnológicos mudaram nossa vida. Eu nasci analógica, na última geração em que isso foi possível. Mudar faz parte da minha rotina, como publicitária já tive 35 profissões, mas isso é tema para um outro texto.
Estou pronta para ReExistir. E você?

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